sábado, 18 de abril de 2020

O que se exige de um bom rei

Os deuses, o adivinho Tirésias..., o neto do rei
Penteu...
«Chamava-se Penteu. Era um rapaz de caracóis castanhos. Desde muito menino, desde quando ainda vivia junto das mulheres, que ele se mostrava sempre muito sério, muito dado a questões e raciocínios. Talvez viesse a governar com competência, porém não tinha nada de simpático. Ora a competência não era indispensável. O Estado a bem dizer, geria-se sozinho. De um bom rei exigia-se outras coisas: que nas cerimónias não se atrapalhasse e que tivesse ataques de riso e cólera, daqueles muito vistosos, que davam que falar. Os Gregos não gostavam de sisudos.»
(Hélia Correia | Henrique Cayatte, O Ouro de Delfos, Relógio de Água Editores, Lisboa, 2004, na colecção MOPSOS, O PEQUENO GREGO)

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A moda

Dentre os jovens médicos, os mais inteligentes declararam — pelo menos durante alguns anos, porque as modas mudam, nascidas elas mesmas da necessidade de mudança — que se alguma vez ficassem doentes, Cottard era o único médico a quem confiariam a pele.

Les plus intelligents d’entre les jeunes médecins déclarèrent — au moins pendant quelques années, car les modes changent, étant nées eles-mêmes du besoin de changement — que si jamais ils tombaient malades, Cottard était le seul maître auquel ils confieraient leur peau.
(A l’ombre des jeunes filles en fleurs, Gallimard, Le Livre de Poche, p. 67)

sábado, 14 de julho de 2018

A língua portuguesa

Albano Martins, citando Raul Brandão:
«Morro com a ideia de que a minha farrapada não serve para nada». A sua obra seria apenas «alguns riscos na parede — e mais nada».
Albano Martins, recentemente falecido, discorda:
«Não. Também ela, nestes tempos de alucinada aceleração e derrapagem, nos serve de guia, quando a língua — a nossa — todos os dias se vê maltratada, sofrendo tratos de polé por parte dos que deviam respeitá-la e cuidá-la: nos jornais, na rádio, na televisão, em todos os lugares da escrita e da fala. Lá onde tantas vezes a vemos abastardada, poluída, e onde no-la servem, não raro, como vinho a martelo
(Albano Martins, em O PORTO DE Raul Brandão, Porto, Campo das Letras, 2000, página 77)

sábado, 28 de janeiro de 2017

Persistir no seu ser ou o desejo de eternidade 2

Espinosa

PROPOSIÇÃO VI
Toda a coisa se esforça, enquanto está em si, por perseverar no seu ser.
[P. 99]
[Acções, Paixões, Alma, Corpo, são explicados por Espinosa, segundo os seus princípios, more geometrico («à maneira dos geómetras»). No final da DEMONSTRAÇÃO, a abreviatura Q. e. d., Quod erat demonstrandum (O que era para demonstrar)]

DEMONSTRAÇÃO
As coisas singulares, com efeito, são modos pelos quais os atributos de Deus se exprimem de uma maneira certa e determinada (pelo corolário da proposição 25 da Parte I), isto é (pela proposição 34 da Parte I), coi- // sas que exprimem de uma maneira certa e determinada a potência de Deus em virtude da qual ele existe e age; e nenhuma coisa tem em si nada por que possa ser destruída, isto é, que suprima a sua existência (pela proposição 4 desta parte); mas, ao contrário, ela opõe-se (pela proposição precedente) a tudo o que poderia suprimir a sua existência. E, por consequência, esforça-se por perseverar no seu ser tanto quanto pode e isso está em seu poder. Q. e. d..
[P. 99-100]

Nota: O texto de Espinosa foi extraído da ÉTICA, Livro II, tradução do latim de Joaquim Ferreira Gomes, Atlântida, Coimbra, MCMLXII.

Persistir no seu ser ou o desejo de eternidade

Boécio
14 - Existe então - perguntou - algo que, agindo de acordo com a sua natureza, abandone o desejo de sobrevivência e se oriente para a morte, desejando a corrupção? [P. 113]
16 Na verdade, todo o ser animado procura assegurar a sua vida e foge à morte e a destruição. [P. 114]
[As plantas, as pedras]

33 De tal modo este amor de si não resulta de um movimento do espírito racional, mas de uma inclinação natural; com // efeito, a Providência concedeu às coisas criadas por si esta motivação básica para a sobrevivência, que é desejarem de forma natural permanecer, na medida em que lhes for possível. 34 Não há razão nenhuma que te permita duvidar, seja de que modo for, de que tudo o que existe procura naturalmente permanecer de forma constante, fugindo ao aniquilamento. [P. 115-116]

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Nobreza

O prestígio da nobreza
«Este, se tem alguma coisa a ver com a glória, é com uma glória alheia: a nobreza, com efeito, é uma glória que vem dos méritos dos antepassados. 8 Ora, se é o  reconhecimento do mérito que faz o renome, é necessário que sejam pessoas notáveis aqueles de quem se fala, porque o brilho da glória alheia, se não tens a tua própria, não te tornará ilustre. Ora, se há na nobreza algo de bom, estou em crer que é apenas o facto de ser imposta aos nobres a obrigação de estarem à altura da virtude dos seus antepassados.»
[ Boécio, Consolação da Filosofia, Prosa 6, pontos 7 e 8, pág. 93, Gulbenkian, 2.ª edição, Lisboa, 2016.